A ofensiva negacionista na vacinação infantil – Cientistas fazem o alerta

Movimento antivacina tenta ganhar com crianças a tração política que não obteve na vacinação de adultos

O Brasil tem um histórico de ampla cobertura vacinal, adesão da população e capacidade de implementação. Tanto é que, a despeito da campanha em contrário do próprio presidente e parcela de seus apoiadores, o Brasil alcançou atualmente um elevado índices de cobertura vacinal no mundo (superior aos EUA, por exemplo). A adesão declarada da população acima de 16 anos, medida por levantamentos de opinião pública, demonstram que a posição antivacina e que de fato rejeita a vacina contra Covid-19, não passa, no Brasil, de 4 a 6% da população. O Centro SoU_Ciência realizou em parceria com o instituto Ideia Big Data levantamento em agosto de 2021 que comprovou aprovação da vacina por 94,5% da população. Mesmo entre apoiadores do governo, a porcentagem antivacina não passava de 11,4%.

A mobilização “anti-vax” é atualmente uma, senão a principal, pauta da extrema-direita internacional. Em nome da liberdade individual irrestrita e sem medir as consequências sanitárias e de saúde coletiva, trabalham com a distorção e a desinformação. Ao mesmo tempo que acusam os pró-vacina de serem coniventes com os lucros das grandes farmacêuticas que monipolizam as vacinas, por trás do movimento anti-vax há um forte sistema de arregimentação e propaganda, além de uma indústria lucrativa, como demonstrou artigo na revista Nature.

No Brasil, da Revolta da Vacina, no início do século 20, aos avanços que levaram a criação do SUS e do Plano Nacional de Imunizações (PNI), vivemos enormes avanços que permitiram construir confiança e capacidade de diálogo com a população nas ações de vacinação, incluindo o famoso personagem “Zé Gotinha” (que o governo tratou de atacar ou de “armar” com uma vacina em forma de metralhadora). O efeito da vacinação contra o Covid-19 no Brasil (e no mundo) está comprovando sua eficácia e a importância da ciência. O gráfico abaixo do Observatório Covid-19 da FioCruz mostra a consistência da queda de óbitos com o avanço da vacinação em 2021:

Contudo, o presidente Bolsonaro e parte de sua base procuraram agora ganhar apoiadores na seara sensível da vacinação infantil. Foi a oportunidade que encontraram para “repolitizarem” a vacina e o suposto “risco” a que submeteríamos nossas crianças. Um apelo emocional em última instância: a de defesa de indivíduos dependentes e que não podem tomar a decisão por si, sujeitos às escolhas feitas por seus pais — que querem o melhor para seus filhos. O movimento antivacina induz os pais a um dilema moral e insere uma dúvida onde não seria necessária, uma vez que boa parte das mais de 17 milhões de crianças brasileiras com menos de 12 anos são vacinadas anualmente para outros vírus e seguem o calendário vacinal, como aliás prevê o Art. 14 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Apesar dos contrários à vacina da covid-19 serem apenas 5% da população, os movimentos antivacina tentam se amplificar nas redes sociais, fazendo muito barulho e multiplicando ataques. Em um levantamento do SoU_Ciência feito nos últimos dias em tuites sobre o tema, é possível notar uma clara divisão entre dois clusters (pró-vacina e antivacina, em que cada nó da rede é um perfil e cada linha uma republicação (RT) entre perfis. Foram coletados 116 mil tuites com as palavras vacina/vacinação e infantil/criança entre 27/12 e 4/1. O cluster pró-vacina teve 48,37% dos perfis e 48,88% das conexões e o cluster antivacina, 34,37% dos perfis e 49,61% das conexões. Os 16,84% restante de perfis são “neutros”, em geral de agências de informação.

Isso significa que nas redes, o movimento antivacina abocanha quase metade da audiência, ou seja, consegue multiplicar em 10 vezes a sua dimensão em relação à opinião pública em geral, que é de apenas 5% antivacina no Brasil.

O debate em torno da vacinação infantil foi a oportunidade do bolsonarismo de tumultuar, tentando impedir e depois retardar a vacinação com a proposição de uma consulta pública para debater a obrigatoriedade da prescrição médica para a vacina para Covid-19 em crianças entre 5 e 11 anos. A segunda tentativa foi a realização de uma Audiência Pública no Congresso, que ocorreu neste 4 de janeiro. Mais uma vez, a movimentação nas redes foi polarizada, vide coleta de 8,2 mil tuítes no dia 4/1 sobre a Audiência Pública.

O cluster antivacina chegou a 51,16% das conexões, produzindo uma movimentação muito acima do que representam na sociedade. A Audiência, na prática, tornou-se palco para personagens que não tinham respaldo científico e que distorceram informações de maneira proposital e antiética para atacar a vacinação — o que estimulou a repercussão nas redes de fakenews e fakescience. Entre os médicos e cientistas que apresentaram dados e informações precisas e corretas estavam, felizmente, os Drs. Marco Aurélio Safadi, Renato Kfouri e Rosana Richtmann com representações impecáveis das sociedades científicas e médicas. Um dos dados mais importantes apresentados pelo Prof. Safadi foi relativo ao recente levantamento do CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) que analisou informações de mais de 8 milhões de crianças entre 5 a 11 anos vacinadas. Poucas crianças apresentaram efeitos adversos leves, tal como febre e mal estar. E apenas 12 crianças, das 8 milhões vacinadas apresentaram efeito mais severo de miocardite, sendo que todas se recuperaram plenamente após o acometimento.

Outro fato que chamou a atenção foram os posts dos antivacina atacando a Anvisa. Contudo, à Anvisa não caberia de fato participar por não se tratar de um debate de opiniões, como pretendeu a audiência. Por ser a nossa Agência Reguladora, a Anvisa fez sua análise técnica e científica e emitiu o seu parecer baseado nos dados e nas checagens dos mesmos. A decisão da Anvisa precisa ser respeitada.

Foram muitos os argumentos utilizados pelos antivacinas, entre ataques e ameaças. A disputa nas redes está sendo analisada pelo SoU_Ciência para compreendermos melhor o quanto o movimento antivacina e seus “porta-vozes” podem trazer prejuízos, não só para a ciência como para a saúde humana.

É sempre preciso lembrar que, se por um lado temos metade da rede ocupada por barulhentos negacionistas, por outro temos cerca de 95% da população a favor da vacina e já boa parte da população vacinada (ainda não na mesma proporção devido às grandes dimensões do país e questões logísticas).

Até que ponto a guerra ideológica declarada pelos antivacinas terá efeito ou se será muito barulho por nada, ainda não sabemos. Mas, é preciso continuar informando a população, falando e explicando o valor da ciência de maneira simples e acessível. Muitas organizações já estão trabalhando nisso, como o SoU_Ciência, e é preciso fazer mais. Se, na política tudo pode virar retórica e “disputas de narrativas”, com o objetivo do convencimento e arregimentação, a ciência se baseia em fatos e evidências. Até o momento, as evidências apontam favoravelmente para a vacinação infantil (vide publicação do CDC). E sem prescrição médica.

Pedro Arantes, arquiteto, professor da Unifesp, ex-pro-reitor de planejamento e Coordenador do SoU_Ciência;

Soraya Smaili, farmacologista, professora da Escola Paulista de Medicina, ex-reitora da Unifesp, Coordenadora Geral do SoU_Ciência;

Nelson Passos, pesquisador do SoU_Ciência

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