Ansiedade na infância

A ansiedade é algo natural em qualquer etapa da vida e todos nós experimentamos em algum momento; seja quando se está diante de obstáculos externos como por exemplo: falar em público, fazer uma prova, iniciar na escola, assumir um novo emprego, entre outros; ou até mesmo em situações em que há o incômodo interno, mas que não se consegue identificar exatamente a causa. 

Esse incômodo pode se apresentar através de vários sintomas que podem ser físicos  como: taquicardia, sudorese, dor no peito, respiração ofegante, palpitação, etc; ou  emocionais: nervosismo, dificuldade de concentração, medo constante, etc.

Para alguns indivíduos, a ansiedade e o medo podem ser uma espécie de mola que  o impulsiona a, por exemplo, estudar mais, pesquisar mais, porque esse indivíduo sente que alguma coisa lhe empurra e então precisa sair em busca de algo do qual ele julga necessitar, mas em muitos casos ele não sabe exatamente o que é. 

Em outras pessoas, a ansiedade pode se apresentar como grande obstáculo ao crescimento promovendo dificuldade em avançar, ou até mesmo levando a um estado de inércia. Ou ainda, um indivíduo que diante da dificuldade de se acalmar e pensar para se buscar uma nova solução, sai atropelando tudo a sua volta. Cada um vai lidar com a ansiedade, segundo sua organização emocional, ou seja, sua personalidade. 

E as crianças, também experimentam ansiedade? Para as criancas não poderia ser diferente, exceto que o aparelho mental durante a infância ainda é incipiente. E isso é importante dizer, porque uma criança não é um mini adulto. Seu mundo mental, ainda delicado, precisa do apoio dos pais e da família para se organizar. A criança não é dotada de competência emocional para suportar excessos. 

A infância é um período marcado por inúmeras mudanças que acompanham o desenvolvimento fisico e amadurecimento emocional.  A ansiedade existe desde sempre, e durante seu crescimento a criança experimenta medo e ansiedade com frequência; a boa notícia é que na maior parte das vezes é considerado algo normal que com o processo de desenvolvimento, amadurecimento e junto com equilíbrio familiar, tende a se organizar de forma saudável.

Entretanto, se a ansiedade começa a interferir na vida da criança de modo que passa a ser um problema tornando-a disfuncional, resultando em  prejuízos emocionais e/ou sociais,  é hora de procurar ajuda especializada. 

A ansiedade na infância pode se apresentar através de vários sinais, como por exemplo: choro frequente, adoecimento físico repetitivo, baixa tolerância a frustração, dificuldade de se relacionar, roer unhas (das mãos e dos pés), arrancar e/ou comer o cabelo, inquietação contínua,  dificuldades com o sono e alimentação, irritabilidade excessiva, desatenção, automutilação, entre outros. Nesses casos é muito importante observar a criança, estar atento aos sinais para compreender o que está causando esse desajuste, sempre levando em consideração a idade e o contexto em que a criança está inserida.  

Mas o que pode causar a ansiedade na criança? As causas da ansiedade podem ser diversas. É comum as crianças ficarem ansiosas diante de situações novas, que ainda não dominam: quando estão aprendendo a ler, ou a andar de bicicleta, ou um esporte novo ou um jogo novo, nascimento de um irmão, mudança de país, mudança de casa, entrada ou mudança de escola e/ou de turma, entre outros.  

Observa-se ainda “gatilhos” que podem promover  o desequilíbrio nas crianças: brigas frequentes em casa, excesso de estímulos, separação dos pais, dificuldade na relação entre irmãos, alteração na rotina, pressão social e emocional e mudança no ambiente familiar. É importante observar como a criança se sente e se é algo transitório ou se vem se repetindo com frequência. 

A criança, muitas vezes, não consegue nomear seu incômodo, seu aparelho mental é ainda precário, e por isso precisa de um adulto que reconheça e compreenda o que se passa com ela para ajudá-la a dar nome ao que sente. Esse processo de simbolização (dar nome ao que sente) resulta em alivio para a criança. 

A reação dos pais deve ser a de dar sustentação emocional a angústia ou ansiedade, ou seja, fazendo-a se sentir amparada, segura e compreendida. É possivel que em algumas situações os pais não consigam um entendimento para o que está ocorrendo, nessas horas, não é preciso se culpar, não saber também faz parte do pacote de ser pai e mãe. Buscar ajuda nesses momentos de dúvida e angustia é sinal de saúde e maturidade dos pais. 

Será que meu filho(a) precisa de medicação? Essa é uma pergunta recorrente no consultório e que deve ser examinada com muito critério. Na maior parte das vezes não há necessidade de se recorrer a medicação.  O uso de medicação deve ser muito bem avaliado, para não se correr o risco de encobrir um sintoma; alguma coisa  que precisa ser investigada; e na ânsia de se conseguir uma resolução, aparentemente rápida, se medica. É importante se aproximar da criança, através do diálogo, da brincadeira; é sempre bom pensarmos que quando se trata de saúde mental, soluções rápidas e imediatas não existem. Entretanto em algumas situações recomenda-se o uso da medicação associada ao tratamento psicológico, com bons resultados.

A criança tem suas características próprias e está inserida em um contexto familiar. Precisa aprender a esperar, a ouvir; e isso é construído diariamente na relação familiar. As atividades lúdicas, o brincar, são importantes durante a infância porque vão favorecer o aprender a lidar consigo próprias e com o outro, tolerando frustração, aprendendo fazer concessões e a manejar a ansiedade. Experimentar o tédio favorece o reconhecimento e o relacionamento com as próprias emoções; muitos estímulos, muitas atividades deixam os pequenos desconectados de sí mesmos.

É importante ressaltar que uma criança com excesso de ansiedade não conseguirá usufruir plenamente de sua própria vida, terá dificuldade em se sentir bem com suas emoções e sentimentos e muitas vezes pode se sentir paralizada em alguma etapa do seu desenvolvimento ou ficar tão angustiada a ponto de não conseguir vivenciar as experiências tão importantes para seu amadurecimento, seja na escola, com amigos ou familiares. A criança deixa de viver o presente, o aqui e agora. 

Por: RENATA BENTO – Psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e famÍlia. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a IPA – Internacional Psychoanalytical Association, a FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e a FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise     

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