Bullying: um caso real

A Terapeuta familiar, Valéria Ribeiro, relata a experiência de seu filho, que sofrera bullying aos 8 anos de idade..

“Corresponde à prática de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, cometidos por um ou mais agressores contra uma determinada vítima. Em outros termos, significa todo tipo de tortura física ou verbal que atormenta um grande número de vítima no Brasil e no mundo. O termo em inglês “bullying” é derivado da palavra “bully” (tirano, brutal)”. Essa é a definição de bullying, conceito que se assemelha aos disponibilizados em dicionários.

Se na teoria, ao lermos sua definição, já temos uma reação de repulsa, imagine se nos depararmos com casos reais. Vemos essa temática ser retratada em diversos filmes e séries. Um exemplo recente, “13 Reasons Why”, trouxe diversas opiniões críticas, principalmente pelo final trágico da vítima. Alguns apoiaram a realidade das cenas, pois estas provocaram reflexão em termos reais sobre como uma vítima de Bullying sofre e quais as consequências disso para a sua vida e a de seus amigos e familiares.

A terapeuta e coach familiar Valéria Ribeiro relata, como mãe, um caso que marcou a sua vida e a de seu filho: No começo do ano de 2008, Valéria matriculou seu filho em uma escola renomada de São Paulo, onde este sofrera severo bullying. “Meu filho sofreu bullying o ano todo naquela escola. Desde os primeiros dias ele começou a sofrer com algumas situações de exclusão. Quando queria socializar com os meninos, jogar bola com eles, o que é normal para uma criança, era desqualificado. Meu filho sempre saía chorando da escola. Neste período coincidiu de descobrirmos que ele possuía um déficit de conteúdo, tivemos que correr atrás para que ele desse conta de todo o conhecimento que ele ainda precisava adquirir para acompanhar a turma e não repetir de ano. Então, ao mesmo tempo que existia uma pressão dos estudos, havia a não aceitação, dentro do ambiente escolar, de simplesmente ele ser como ele é”, conta Valéria.

Percebemos que o bullying se forma em uma relação de hierarquia: onde o mais valentão e popular menospreza aquele que acha inferior a ele, pelo simples fato de não aceitar a diferença daquele que, teoricamente, em sua mente, é “abaixo dele”.

“Lembro que muitas vezes eu, como mãe, ia à orientadora da escola relatar o que estava acontecendo, mas isso não adiantava, o corpo pedagógico sempre me respondia com alguma desculpa. Uma vez, uma das professoras me disse: ‘seu filho é inteligente, cooperativo, procura sempre ajudar os amigos e os professores, é educado e respeita a todos, por isso ele é diferente’. Neste momento percebi que os valores que eu ensinava meu filho eram diferentes do que ensinavam na escola e, para aquela escola, isso não servia. Era uma escola competitiva e o que valia era ser o mais ‘esperto'”, desabafa Valéria.

A vítima, seu filho que na época (2008) tinha apenas 8 anos de idade comenta: “Eu lembro que eu tinha muito medo e insegurança de fazer qualquer coisa”, comenta o menino que, hoje, tem 18 anos de idade. “Por eu ter sofrido bullying eu fiquei muito inseguro, pensando que não podia mais fazer as coisas e que sempre estava errado. Também tinha o medo constante que a situação voltasse a acontecer”.

O Bullying, como podemos perceber, traz diversas consequências negativas, principalmente ao psicológico da vítima.

Ao trocar o filho de escola, Valeria afirma que buscou compreender não só a estrutura física da escola, a qualificação dos professores e as matérias, mas também a formação socioemocional que essa propunha: “Fui saber quais eram os valores ensinados no dia-a-dia da escola (disciplina, organização, cooperação, inclusão, aceitação, desenvolvimento cognitivo e intelectual), como essas coisas todas eram ensinadas”.

Seu filho afirma que, apesar de tudo, aprendeu a ter empatia para com o próximo: “Não gostaria que alguém passasse pelo mesmo que passei, aprendi a beleza de ajudar o outro ao invés de humilha-lo”. Em meio a tanto sofrimento, ele conseguiu tirar algo bom. Mas, infelizmente, existem casos, como o retratado na série “13 Reasons Why” de que a vítima, além de não ter um diálogo aberto com os pais, teve um final diferente do filho de Valéria, mais trágico.

Abordando essa temática percebemos que, além de o bullying ser uma arma que fere o direito humano de ser quem verdadeiramente é, a sua prática, de qualquer forma, traz consequências marcantes e o diálogo aberto entre vítima e pais é uma grande ajuda, que unirá forças contra este inimigo social.

“Não seja simpatizante disso, não transforme a vida do outro em um tormento, em uma carga difícil e pesada de ser carregada. Alguns não aguentam essas situações e em suas mãos, agressor, restará a marca da culpa por mais uma vida perdida em meio à violência. Olhe o outro com compaixão, cada um de nós é diferente. Aprenda a amar essa diferença”, finaliza Valéria.

Serviço: Valeria Ribeiro

Terapeuta e Coach Familiar, especializada em Terapia Familiar Sistêmica e Fundadora do Filhosofia

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