Dia da Infância: aumento do acesso às telas tem distanciado as crianças do lúdico

Atividades por meio de brincadeiras auxiliam o desenvolvimento das crianças, colaborando na base da educação infantil

uso, com pouco controle, de celulares, televisão e outros aparelhos eletrônicos distanciou as crianças do convívio lúdico e mudou as interações com outras formas de lazer. O uso de telas se tornou parte integrante do dia a dia familiar durante a pandemia, e o uso de tablets e celulares, que antes da pandemia ficava em 15% para crianças de zero a três anos, saltou para 59% durante os meses de isolamento, segundo pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, sob consultoria da Kantar Ibope Media. A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é de que crianças abaixo de dois anos não tenham acesso a telas; entre dois e cinco anos, limitar ao máximo de uma hora diária; entre seis e dez anos, duas horas por dia; e acima de onze anos, três horas.
 

Tereza Cruz, mãe de três crianças e moradora da Região Metropolitana de Fortaleza (CE), viu isso acontecer em sua família. Com a correria diária que começa às 5h30 com o preparo do café para as crianças irem para a escola, falta tempo para dar conta de todos os afazeres e dar atenção aos filhos, que têm entre oito meses e sete anos. “Um certo dia, fui surpreendida com a seguinte indagação: ‘Mãe, a senhora não tem mais tempo para brincar comigo!’ E isso doeu! Mas os dias têm sido difíceis. Para substituir nossa ausência, achamos mais fácil dar o celular. Mas a tecnologia não ajuda muito”, conta Tereza, que é participante dos programas realizados pelo Projeto Alegria da Criança (PAC), de Caucaia (CE), organização social parceira do ChildFund Brasil.
 

Com esse aumento das telas na vida das crianças, as chamadas brincadeiras tradicionais perderam espaço, o que pode impactar o pleno desenvolvimento infantil, um direito básico que deve ser reforçado neste 24 de agosto, Dia da Infância. “A criança precisa de estímulos adequados, de afeto, de uma boa nutrição e de muita brincadeira”, afirma Sofia Rebehy, gerente do projeto Brinca e Aprende Comigo do ChildFund Brasil, lançado neste mês pela ONG em parceria com a The LEGO Foundation.
 

Com a experiência da maternidade, hoje, Tereza enxerga a importância dessas atividades lúdicas para o desenvolvimento dos pequenos e para o relacionamento com os filhos. “Se não parar para ter um momento com meus filhos, o tempo não perdoa e eles crescem, e não tem mais aquela voz ‘mãe, brinca comigo’. O que deveríamos fazer, não importa se no meio da correria, é parar tudo, sentar com eles, ensinar as brincadeiras da nossa época e aproveitar esse momento único com eles. Eles também podem aprender brincando”.
 

Pensadores como Lev Vygotsky, Jean Piaget, Sara Paín, entre outros, falam como as crianças aprendem e se desenvolvem com o lúdico, construindo seu próprio mundo, e como se relacionam com ele, com os outros e com elas mesmas, dando significado a tudo que aprendem. Por meio do lúdico, a criança adquire conhecimento 

e tem melhor desempenho na aprendizagem. “O projeto ‘Brinca e Aprende Comigo’ é a soma do respeito ao brincar como linguagem da infância, com a busca pelo desenvolvimento integral de todos que fazem parte da relação. O propósito é buscar por relações mais sensíveis entre pais e filhos, com mais diálogos e não apenas a imposição hierárquica”, explica Sofia. 
 

Inicialmente, crianças de 37 municípios do Ceará e de Minas Gerais estão sendo atendidas por meio de 12 parceiros locais. A expectativa é de que 12,5 mil crianças, de zero a oito anos, e mais de 6 mil mães, pais e cuidadores sejam impactados. “Esse primeiro ciclo é exatamente para fomentar o fortalecimento de vínculo entre pais, mães, cuidadores e cuidadoras com as crianças, trazendo o entendimento e a importância do brincar para o desenvolvimento infantil”, explica Gabriel Barbosa, gerente de advocacy e programas do ChildFund Brasil.
 

A criança não deve ser limitada a brincar com brinquedos ou direcionadas por um cuidador, já que a imitação do cotidiano e da rotina dos adultos faz parte do aprendizado infantil, como brincar de casinha ou fazer comida. O faz de conta, em que a criança imita de uma forma mais livre e espontânea, é ainda mais importante. Nesse momento, ela tem liberdade de imitar o que quiser, de fadas e príncipes e princesas, a personagens de livros, desenhos ou filmes. 
 

Ao praticar a imitação e o faz de conta, a criança adquire hábitos das pessoas ou personagens que ela utiliza para a brincadeira, por isso é importante a supervisão e o cuidado ao que ela está tendo acesso. Se ela vê atitudes respeitosas e bondosas, essa será sua referência de vida. Isso vale também para agressividade e má-índole.

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