Discordar na frente das crianças?

Todos nós sabemos que para ser pai e mãe não existe um manual nem os filhos chegam com tutorial; o dia a dia pode ser desgastante e um desastre emocional para a prole, quando os pais não conseguem ter uma linguagem comum. Não pense que esse tipo de coisa ocorre somente em casas de pais separados; não, isso ocorre diariamente em casas onde os pais são casados.

Um casal sem filhos não tem rotina e, portanto, não necessita de ajustes quanto a uma série de restrições impostas pelas necessidades de uma criança.

Em situação ideal, um casal tende a conversar e projetar no futuro o que cada um imagina sobre a criação dos filhos, mas, na prática, na chamada vida real, isso não acontece, e, quando nascem os filhos, nascem também as dificuldades. É também nesse momento que irá surgir, como em um passe de mágica, a forma como cada um pensa a educação e como cada um vai desejar educar, muitas vezes passando por cima do que o outro genitor pensa e acredita.

Essa forma individual nem sempre vai casar com a forma do outro genitor, porque cada um foi criado dentro de uma família com conceitos e preceitos diferentes a cerca da educação e do que cada um imagina ser bom para a criação dos filhos; e exatamente por isso frisa-se a importância do diálogo e dos acordos.

Com o nascimento de uma criança nasce também um pai e uma mãe, trazendo consigo uma enxurrada de aspectos inconscientes advindos de relações primitivas sobre a forma como foram cuidados e modelos transgeracionais, que consistem em toda uma bagagem emocional que irá se juntar a uma nova experiência com algo que não se tem a menor experiência, porque são inexperientes na arte do convívio e na relação com esse novo integrante da família. É bem verdade que a criança, nesse caso, está em desvantagem porque os pais são adultos e ela, como dependente deles, anseia pelos cuidados dos mesmos.

As pessoas não são iguais e pensam diferente. Tudo bem desde que essas diferenças não atrapalhem ou bloqueiem o processo de amadurecimento das crianças. Se as divergências são muito significativas, a criança poderá se sentir desamparada e tender a desejar tomar o controle da relação parental, tirando um dos pais do lugar central, saindo ela do lugar de criança e dificultando ainda mais a harmonia familiar. Nesse tipo de condução, a criança perde muito porque acaba por ocupar um lugar que não é dela, prejudicando-a em seu processo de desenvolvimento emocional, deixando-a com uma série de sintomas advinda do conflito parental que a arremessa na indecisão: ‘a quem devo escutar’? Provavelmente a criança escolherá o que lhe parecer mais fácil, sem que ela tenha competência para tal.

É muito comum observar no consultório a dificuldade que os pais têm em fazer acordos quanto ao que cada um pensa sobre como educar uma criança, além disso há também a objeção em ceder. Ceder também não tem que ser uma competição onde cada um cede uma vez, e sim significa observar as necessidades da criança e fazer a escolha coerente dentro do que é melhor para o desenvolvimento dela.

Há pais que discutem na frente dos filhos sobre aspectos divergentes, como, por exemplo, uma criança que estude no período vespertino: um quer que ela faça os deveres logo depois que chega da escola, mas o outro acha que está cansada, que deve descansar e fazer no dia seguinte antes da escola. Outro exemplo: um dos pais alimenta a criança no sofá da sala diante da televisão enquanto o outro deseja que a mesa seja posta para que a família jante todos os dias junto. Para cada um dos pais, esse modelo tem um tipo de valor. E por conta disso, todos os dias brigam na frente da criança. Outro exemplo: para um dos pais, a alimentação deve ser regrada, evitando guloseimas diárias, mas para o outro isso não é nenhum problema, pois cresceu assim em sua família.

Quem está certo? Provavelmente cada um terá seus motivos para justificar seu ponto de vista. Só que esse tipo de discussão aparentemente simples na frente da criança irá criar mais problemas do que solução. Se um deles discorda, vai precisar aguardar o momento a dois para uma conversa a respeito. Também não adianta um concordar (falsamente) com o outro e quando o filho vier reclamar dizer a ele que isso ocorre assim porque ‘a sua mãe mandou’ ou porque ‘isso é coisa do seu pai, por mim eu deixava’. A criança se sentirá segura se os pais trocarem o ‘EU’ pelo ‘NÓS’. Deste modo, deve-se dizer ao filho ‘nós pensamos que assim é bom para você’ ou ‘eu e sua mãe acreditamos que é melhor desse jeito’. Com esse tipo de linguagem, a criança ficará no lugar de criança, isso diminuirá a ansiedade dela e favorecerá seu amadurecimento.

Como não há manual e é na prática que irá se desenrolar o processo de gestação parental, uma criança vai colocar em xeque a capacidade reflexiva dos pais e vai pressionar a ampliação desta o tempo todo. Por isso, é preciso se perguntar: “essa decisão é boa para meu filho (a)? Ou seja, estar atento quanto aos benefícios de tal atitude para favorecer o bom andamento do processo de amadurecimento da criança e, se os pais não conseguirem chegar a um acordo, deverão buscar auxílio de terapia de família ou de casal para os ajustes necessários.

RENATA BENTO – Psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e famÍlia. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a IPA – Internacional Psychoanalytical Association, a FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e a FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise   

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