Educador fala sobre os desafios da alfabetização de crianças em meio à pandemia

Pesquisa do Todos pela Educação revela que número de alunos entre 6 e 7 anos sem saber ler e escrever aumentou 66% 

Prestes a completar dois anos, a pandemia segue afetando, além da saúde, a educação de crianças e jovens no País. Uma pesquisa do Todos pela Educação, embasada nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Pnad, mostrou que, entre 2019 e 2021, o número de crianças de 6 a 7 anos que, na percepção dos pais e responsáveis, não sabiam ler nem escrever aumentou em 66,3%. De 1,4 milhão em 2019, o índice saltou para 2,4 milhões no último ano. 

O relatório também escancara a desigualdade na Educação por fatores como etnia e classe social. Enquanto o aumento de crianças não alfabetizadas entre alunos brancos foi de 20,3% para 35,1%, o número de crianças pretas e pardas são bem maiores: de 28,8 e 28,2%, o salto foi para 47,4% e 44,5%, respectivamente, no mesmo período. Nos bairros mais pobres, o percentual subiu de 33,6% para 51%. Já nas localidades mais ricas, o aumento foi de 11,4% para 16,6%. 

É consenso na classe pedagógica que desde o início do ensino remoto, com as escolas fechadas, professores e toda a comunidade escolar precisaram se reinventar e encontrar formas efetivas para que o prejuízo nos processos de aprendizagens fossem o menor possível.  

A tecnologia, ainda que de forma desigual, foi por muito tempo o único elo entre professor e aluno. Thiago Zola, gerente de projetos pedagógicos na Mind Lab, líder em pesquisa e desenvolvimento de soluções e tecnologias educacionais, reconhece a importância das aulas on-line no período mais crítico da pandemia, mas entende que a retomada das atividades presenciais é indispensável para o resgate das perdas significativas nos processos de aprendizagem, pensando principalmente na abismal desigualdade no acesso à tecnologia que impede que o ensino remoto alcance a maioria das famílias brasileiras. 

A alfabetização é um dos momentos mais importantes na vida escolar de qualquer pessoa e é possível inserir ferramentas como tecnologia, jogos e até brincadeiras, para engajar mais os alunos. “O que garante que o processo de aprendizagem seja efetivo nas aulas on-line, presenciais ou híbridas é o planejamento e estruturação de atividades, de acordo com a fase de cada estudante. Além, é claro, de seguir a Base Nacional Comum Curricular”, comenta Zola. 

“Acredito que trazer aspectos lúdicos no currículo pode gerar mais engajamento e motivação nos alunos na fase de alfabetização e letramento, além de estimular a criatividade, favorecer o convívio entre colegas e desenvolver empatia. Isso porque, para criança, tudo é brincar, desde o alimento, até a roupa que usa. Por isso, brincadeiras dentro de um projeto pedagógico oferecem tantos ganhos”, destaca Zola. 

O educador fala sobre a importância da avaliação e acompanhamento individual. “Da mesma forma que mantemos um planejamento em salas de aula, nas aulas on-line, os professores precisam ter em relatórios os avanços, dificuldades e superações de cada aluno, já que o processo de alfabetização confere diferenças entre estudantes, porque não se trata de um desenvolvimento homogêneo”, pondera o especialista. 

Ele lembra também da importância de políticas públicas para o sucesso na recuperação de perdas de aprendizagem. “Desde o ano passado, vemos os esforços de profissionais da área, sobretudo da educação pública, com a busca ativa de alunos, já que a evasão é um problema grave e está totalmente ligada ao aumento de crianças sem saber ler e escrever”, comenta. “Mas é preciso que as esferas do governo somem forças para encontrar soluções e prover os recursos necessários, porque os números podem subir ainda mais”, finaliza. 

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