Entenda por que bater não vai melhorar o comportamento do seu filho

Especialista em Neurociências Comportamental Infantil alerta sobre as consequências da disciplina violenta

Em todo o mundo, mais de duas em cada três crianças sofrem disciplina violenta. Embora a maioria das comunidades em todo o mundo aceite e utilize o castigo corporal como prática parental, vários estudos feitos nos Estados Unidos revelam os efeitos prejudiciais que palmadas e surras podem ter no desenvolvimento do cérebro de uma criança.

Considerando evidências que mostram que as crianças sentem medo, tristeza, culpa e muita angústia quando expostas a castigos corporais, estudos científicos apontam que palmadas podem alterar as mesmas regiões do cérebro afetadas por abuso físico e emocional mais severos.

Pesquisas feitas na Universidade de Harvard mostram que, crianças que apanham exibem funcionamento cerebral atípico nas mesmas áreas que são afetadas quando passam por abusos mais graves.

Uma das pistas mais importantes de segurança física e emocional para o cérebro humano, é a expressão facial de outras pessoas. Nosso cérebro tem a função de manter a nossa sobrevivência e, portanto, sinais de ameaça, como testa franzida e um olhar agressivo na face de outro indivíduo, especialmente dos pais, já é o suficiente para disparar uma série de eventos fisiológicos no corpo da criança e que a prepara para lutar ou fugir.

Quando uma expressão facial ameaçadora dos pais vem ainda acompanhada de tapas, gritos, surras ou castigos, o “estrago” emocional é ainda maior, pois a parte cognitiva do cérebro, que nos ajuda a pensar e a tomar boas decisões, simplesmente é desligada nessa hora.

Então a criança em vez de se abrir para aprender com os próprios erros que cometeu, é tomada pelo medo e seu cérebro entra no modo sobrevivência, sendo dominado pelas emoções e, portanto, incapaz de pensar ou focar em soluções nessa hora.

A região do cérebro que é impactada por tapas e surras são as mesmas impactadas quando as crianças sofrem abuso sexual, violência física ou maus-tratos psicológicos, tipicamente vistas como “piores” do que surras.

Tais descobertas confirmam que a palmada, embora considerada muitas vezes inofensiva – ou mesmo benéfica – para as crianças, é tão prejudicial quanto outras formas de violência e não deve ser considerada como uma categoria separada de abuso.

Infelizmente, países em todo o mundo ainda acreditam que a palmada é menos prejudicial. De fato, estudos mostram que a punição corporal leva a uma ampla gama de resultados negativos de saúde, como ansiedade e uso de drogas.

Impacta o desenvolvimento e o comportamento das crianças e podem acompanhá-las até a idade adulta, incluindo saúde mental ruim, notas escolares mais baixas, aumento da agressividade, problemas de autorregulação emocional e aumento do comportamento antissocial.

Espero que os pais que são a favor de punição corporal entendam que não estão promovendo o aprendizado, ou melhor comportamento de seus filhos pequenos. Na verdade, podem estar fazendo o oposto, comprometendo até mesmo o desenvolvimento inicial do cérebro infantil.

É possível disciplinar uma criança e colocar limites de forma respeitosa, mas precisamos nos reeducar e nos dedicar para aprender.

Telma Abrahão é formada em Biomedicina há mais de 20 anos e especialista em Neurociências Comportamental Infantil. Idealizadora da Educação Neuroconsciente e autora do best seller “Pais Que Evoluem”.

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