Filhos na Cama dos pais

Como a rotina do casal muda com a chegada dos filhos, cada idade do filho vai suscitar nos pais um modo diferente de se relacionar com eles

Não adianta um casal querer privacidade absoluta se tem um bebê em casa, porque o bebe é muito dependente, principalmente da mãe. A medida que a criança vai crescendo a dependência absoluta vai diminuindo e fica sendo mais possível o casal reestabelecer sua intimidade. Isso vai acontecendo aos poucos, os pais mantem a criança no quarto dela contribuindo para a autonomia do filho e ficam com a privacidade do seu quarto.  


A sexualidade existe desde o nascimento. O quarto dos pais é um lugar do casal, e a cama dos pais (cama de casal) o nome mesmo já diz, é o lugar da intimidade sexual do casal. Os filhos pequenos (os bebês), não devem ser colocados como cumplices da relação sexual do casal, é preciso que haja limites definidos entre o momento de intimidade do casal. Eles sentem que há algo acontecendo, mas não compreendem, não vão saber distinguir, porque ele não tem capacidade emocional para compreender o que ele escuta e, portanto, é perturbador. Tudo fica armazenado no inconsciente. 


Enquanto a criança dorme, ela continua viva, ela está ali. O fato é que os filhos tiram a privacidade dos pais quando dormem na cama deles. E os pais roubam do filho a possibilidade da criança  lidar com limites, frustração rumo ao processo de autonomia. Ficam embolados na vida intima do casal. 


Ë importante que a criança saiba que cada um tem seu espaço individual, tem seu lugar. Intimidade é isso, o respeito pelo lugar de cada um. Confunde-se intimidade com invasão, a invasão não pressupõe distinção e lugar, fica tudo misturado. 


Ao ocupar a cama dos pais a criança ocupa subjetivamente um lugar que a ela não pertence, que é o lugar de um casal. Podemos indagar: quem dorme com a mamãe? Quem dorme com o papai? Porque os adultos dormem juntos? Um casal dorme junto para estreitar a relação.

Ao ser colocada na cama dos pais, um lugar que não é dela, e sim um lugar que deveria ser de um parceiro afetivo do papai ou da mamãe, a criança fica incumbida insconscientemente, de ocupar o lugar de um parceiro ou parceira na vida da mamãe ou do papai. Ela experimenta em fantasia o lugar que é de um adulto sem competência de sê-lo e portanto se angustia pela impossibilidade de ser esse adulto companheiro. Ë impossível para a criança ser esse adulto que falta na outra metade da cama.

Cria-se para criança uma dependência afetiva desnecessária entre outras questões. Deitar-se com um adulto e com a proximidade do corpo da criança com o corpo do adulto, o que se passa na fantasia da criança pode levá-la a ter dificuldades no sono, na alimentação e até mesmo com a sexualidade.
A criança vai precisar lidar com uma excitação desnecessária e impossível para ela de dar conta, porque ela não possui competência emocional para digerir esse acumulo de energia, ou excitação.

Limite promove autonomia permitindo um relacionamento com o mundo também saudável. Uma criança já ira viver por ela mesma suas próprias fantasias a respeito da sexualidade. E colocá-la para dormir no lugar de intimidade do casal a deixará com a certeza de que ela pode estar em todos os lugares, inclusive no meio do casal. É preciso que os pais também avaliem qual seria para eles, a função que aquela criança ocupa, em um lugar que não é dela.


RENATA BENTO – Psicanalista – Psicóloga .Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro da International Psychoanalytical Association – UK.Membro da Federación Psicoanalítica de América Latina – Fepal. Especialização em Psicologia clínica com criança PUC-RJ. Perita ad hoc do TJ/Rj – RJ. Assistente Técnica em processo judicial. Especialista em familia, adulto, adolescente.

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