Governo suspende vacinação de adolescentes sem comorbidades e leva famílias à insegurança, pediatra comenta

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) previa o início da vacinação para a faixa etária de 12 a 18 anos sem comorbidade, com a aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que, de forma muito correta, fez avaliação detalhada de toda a literatura médica e mostrou que os poucos riscos associados à vacina valem o benefício da vacinação.

“Infelizmente, tivemos um grande impasse e informações confusas no portal do Ministério da Saúde, nestes últimos dias, causando grande comoção e um verdadeiro Fla x Flu nas redes sociais, entre grupos favoráveis e contrários à aplicação da vacina em adolescentes. E a entrevista coletiva do Ministro da Saúde, que deveria ajudar a acalmar ânimos e esclarecer dúvidas, não deixou a população mais tranquila”, lamentou o médico.

A decisão tomada foi a de tirar, temporariamente, este grupo de adolescentes sem comorbidades do PNI, indo na contramão da recomendação da ANVISA, da Sociedade Brasileira de Pediatria, da Sociedade Brasileira de Imunizações e de outros órgãos verificadores de diversos países, baseando-se, teoricamente, na recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Telles fez questão de vir a público para acalmar os pais e familiares que ficaram desconfiados e preocupados com a segurança da vacina. No vídeo, ele explica de modo detalhado porque as famílias que já vacinaram ou pretendiam vacinar os seus filhos têm amplos motivos para sentirem-se confiantes quanto ao imunizante.

“A informação que todos os bons profissionais da área da saúde deveriam passar, agora, para vocês é simples: SIM! A vacina é segura, é eficaz e vai ser feita para esta faixa etária. Se você vacinou o seu filho, fique tranquilo. Se não vacinou, logo chegará a vez dele”, atesta.

Críticos da decisão – A grande contradição na decisão tomada pelo governo está no fato de que, se não fosse segura, a vacina não teria sido mantida para os adolescentes com comorbidades: “Se realmente existissem riscos maiores que os benefícios, nem mesmo este grupo deveria estar liberado para ser imunizado”. Outros fatores: não ficaram claros os reais motivos da suspensão, e a decisão não parece ter sido feita em concordância com as equipes de especialistas do PNI.

A Sociedade Brasileira de Imunizações também emitiu nota afirmando que entende que a população de maior risco deve ser priorizada, mas não concorda no recuo do Ministério da Saúde em relação à vacinação de adolescentes, porque gera receio na população e abre espaço para fake news. Reitera a importância das vacinas para toda a população como principal meio de evitar os riscos da doença e suas sequelas, associando à vacinação a melhora no cenário epidemiológico do país. E termina lembrando que não há evidências científicas para essa decisão de interromper a vacinação de adolescentes, sugerindo que o processo seja retomado pois já foi avaliado, liberado e indicado pela Anvisa. “A vacinação é um dos fatores, senão o principal, que colaborou para essa melhora. Vacinar os adolescentes pode contribuir ainda mais. Não há evidências científicas que possam justificar a decisão de interromper a vacinação de adolescentes, com ou sem comorbidades. A verdade é que a afirmação do ministro, nesse pronunciamento, foi inconsistente”, resume o pediatra em seu pronunciamento nas redes sociais.

Já a Sociedade Brasileira de Pediatra, em comunicado oficial, recorda que apesar de chegar a 5% os casos de COVID-19 em crianças, elas não estão isentas de desenvolver as formas graves da doença, além de apresentar casos de COVID-19 longa e consequências que envolvem problemas cognitivos relacionados ao aprendizado. Afirma que o Reino Unido, recentemente, passou a recomendar a vacina para adolescentes e que as decisões unilaterais, como essa do Ministério, não contribuem para o sucesso do Plano de Imunização do país. Finaliza lembrando que a vigilância quanto a eventos adversos deve ser contínua para todas as idades, para, assim, continuar atestando a segurança e o perfil do risco benefício das vacinas contra a doença.

Após avaliar os dados apresentados na coletiva do Ministério da Saúde, Telles ainda comentou os eventos adversos da vacina, que, por definição, são qualquer reação não prevista pós-vacina e podem ser graves e não graves.

Segundo levantamento Sistema Único de Saúde (SUS): foram 3.538.52 os adolescentes vacinados, destes 3.519.20 receberam uma dose e 19.315, duas doses. “O principal efeito adverso apresentado está relacionado a erro de imunização. Sabe o que é isso? Aplicaram, pasmem vocês, vacinas erradas, não liberadas para esta faixa etária, como Coronavac, AstraZeneca e Janssen”. Ou seja, efeitos adversos ocorreram porque não foi a vacina Pfizer a aplicada naqueles casos. Ele cita o caso do adolescente, no estado de São Paulo, que teve morte com relação temporal à vacina, mas recorda que não há ainda relação comprovada. O caso está em investigação rigorosa, mas, até o momento, não se estabeleceu relação causal direta.

Miocardite – A principal preocupação das pessoas são os casos de miocardite associada à vacina. Nesse aspecto, Telles recordou a frase do ministro Queiroga durante a entrevista coletiva: “a miocardite que a COVID-19 provoca é muito mais gravosa que a EVENTUAL miocardite provocada pela vacina”.

A incidência de efeitos adversos como a miocardite é de 16 para cada 1.000.000 de pessoas que recebem as duas doses, e é extremamente rara e muito inferior ao risco da própria COVID-19. No vídeo, ele retoma os dados da Anvisa que atestam a segurança da vacina Pfizer para adolescentes e explica que não há lógica na suspensão: “Conseguiria ver lógica nessa decisão se a recomendação do Ministério da Saúde fosse a de parar temporariamente a vacinação nos adolescentes até que todos os adultos tivessem recebido as duas doses e os idosos, a terceira dose. Mas dizer que é necessário avaliar melhor os dados é um equívoco”, indica.

Telles ressalta que não podemos comparar a situação do Brasil ao Reino Unido, por exemplo: “O Reino Unido nunca disse que não irá vacinar crianças de 12 a 15 anos. O que houve foi um aconselhamento neste sentido por um dos órgãos do governo levando-se em conta os números que eles têm, que são completamente diferentes dos nossos, aqui, no Brasil. Lá, aconteceram 3 mortes por milhão na população abaixo de 21 anos. Nos Estados Unidos, 5,8 mortes por milhão. E, no Brasil, 43 mortes por milhão na população abaixo de 19 anos. Sem falar na possível subnotificação que podemos ter tido aqui no nosso país”.

Outros países – Muitos países estão vacinando seus adolescentes: Alemanha, Canadá, Bahrein, Chile, Cuba, Estados Unidos, Equador, França, Hungria, Israel, Itália, México e Portugal. “A União Europeia autorizou o uso de vacinação para crianças de 12 a 15anos. Todos eles fizeram como a Anvisa, avaliação detalhada de toda literatura médica, e a vacina foi aprovada pelo órgão regulador responsável desses países”, explica Telles, que acredita ser a vacina o meio mais eficaz e necessário para proteger as crianças e para que possamos seguir melhorando nosso cenário epidemiológico.

Vacinas sim! – A opinião de Telles é de que deveríamos otimizar o uso de todas as vacinas no Brasil. “Já está bastante claro que para minimizar ao máximo a circulação viral deve-se proteger o maior número de pessoas de qualquer faixa etária e, assim, ajudar a evitar o surgimento de novas variantes. Para conseguir a tão falada imunidade de rebanho, precisaremos vacinar crianças e adolescentes para atingirmos a taxa máxima de pessoas vacinadas e reduzir a circulação e a taxa de transmissão comunitária”, reitera.

As diversas formas clínicas da doença e os efeitos da COVID longo são muito ruins. “Daí a necessidade de retomar a vacinação de adolescentes sem comorbidades, porque ainda estamos no meio da pandemia, e uma medida inoportuna e imprevista como essa não foi tomada com base em argumentos sólidos, até o momento, que contraindicassem a vacina em adolescentes! Sigamos a ciência: cuidemos de nossas crianças e adolescentes! Vacinas sim!”, concluiu o pediatra ao falar aos seus seguidores e familiares de seus pacientes.

Dr. Paulo Telles, pediatra e neonatologista pela SBP

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