Os prejuízos emocionais do excesso de zelo e superproteção

Educar uma criança é papel dos pais, e, esse processo de educação é amplo e complexo..  As coisas se tornam mais complicadas quando esses pais se confundem e não conseguem separar sentimentos e frustrações do seu processo de amadurecimento e se embolam, sem ter clareza, de que a criança precisa passar por esse caminho para se tornar um adulto separado de seus pais, autônomo e independente.

Uma das coisas que mais se observa é a dificuldade em falar não para uma criança, deixando-a sem parâmetro para saber qual é o limite, até onde pode ir. E uma criança sem limite é uma criança sem contorno, desamparada e à disposição de seus próprios impulsos, pois não atingiu o conhecimento e o amadurecimento necessários para discernir sobre seus sentimentos e o mundo. Isso trará prejuízos importantes que podem interromper o fluxo do seu desenvolvimento.

A criança mimada ao contrário do que se pensa, pode parecer segura, mas é um engano; a criança mimada é frágil emocionalmente e dependente daquele que a mima, tendo este como seu centro do universo. Deste modo tem toda chance de se tornar um adulto frustrado e infeliz, e, se não tiver consciência disso e iniciar tratamento psicológico, buscará o mesmo modelo em suas relações amorosas e sociais que tenderão ao fracasso. Podem ficar aprisionadas a esse modelo, sentindo-se vitimizadas ao mínimo fracasso e prisioneiras do ciúme.  

Toda criança precisa ser acompanhada de perto pelos pais para que ao longo de seu amadurecimento, seja proporcionada a ela a tarefa de se tornar e se sentir afetivamente pertencente àquela família e ao mundo, com segurança suficiente para posteriormente adquirirem a independência e separação das figuras parentais e se lançarem na aventura de sua própria vida com capacidade de discernir sobre suas escolhas.

É comum a criança mimada ter dificuldade de se relacionar na escola e fora do ambiente circundante de quem a mima.  As pessoas do mundo externo não terão disponibilidade afetiva para se relacionar com as exigências da criança mimada, logo, essa criança tenderá a ficar mais solitária e isolada dos demais, será uma criança incompreendida e com dificuldades relacionadas a autoestima e segurança emocional. É como se ela não tivesse tido a oportunidade de adquirir os “anticorpos emocionais” tão importantes, consequência de seu processo de alfabetização emocional e experiências de relação, porque lhe foi retirada a prova real de sua capacidade de experimentar e de tolerar a frustração. 


 A frustração faz parte do pacote de existir e viver na realidade, é saudável e é importante aprender a lidar com ela. A realidade impõe limites e isso pressupõe que nem tudo pode, ou tende a se tornar aquele adulto de difícil convívio que pouco sabe sobre si, sobre seu temperamento e sobre até onde sua agressividade pode ir. Um adulto que não cabe nele próprio.

Outras hipóteses para se pensar do porque mimar uma criança, além da embolação do processo de educação pregresso dos pais com o da criança: o medo de dizer não e ser odiado pelo filho; quando a relação entre o casal está insatisfatória e acaba por fazer da criança o centro da casa; crianças muito esperadas, após longo período de tentativa de engravidar; pais imaturos; e crianças que nasceram com alguma dificuldade. Normalmente esses fatores são inconscientes.


É comum alguns pais se fragilizarem diante da raiva de uma criança porque temem perder o amor dela, esquecendo-se de que esse é amor de que mais precisa uma criança, uma educação sincera e com bom senso sobre suas atitudes, seus sentimentos e impulsos destrutivos.
Os pais e a família são responsáveis por darem segurança afetiva e material para a criança, ao mesmo tempo em que precisam impulsioná-la a lidar com os aspectos da realidade, entretanto, a criança que cresce em meio a esse excesso de ternura, tenderá a se sentir insegura com ela própria e para avançar diante dos fracassos, despreparada e inferior aos demais, isso poderá culminar em um processo depressivo durante a adolescência e vida adulta.

Esse excesso de zelo, a superproteção e o mimo, mais tarde serão vivenciados pela criança como uma grande fraude, dor e frustração. Esses sentimentos podem trazer prejuízos emocionais graves, e, todo aquele investimento afetivo outrora feito pelos pais precisará ser revisto em busca de ressignificação em um processo de releitura da alfabetização emocional experimentado em sua infância

Colaboração: Renata Bento (Psicanalista – Psicóloga .Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro da International Psychoanalytical Association – UK.Membro da Federación Psicoanalítica de América Latina – Fepal. Especialização em Psicologia clínica com criança PUC-RJ. Perita ad hoc do TJ/Rj – RJ. Assistente Técnica em processo judicial. Realiza atendimento de adulto, criança, adolescente e familia).

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