Proteção na infância: os perigos da conexão ilimitada

A questão aqui não é exatamente “patologizar”,  mas buscar compreender e alertar que o uso excessivo de tecnologia pode causar prejuízos às crianças e dos adolescentes, principalmente em uma etapa da vida em que se necessita tanto de estabilidade emocional, de orientação e supervisão familiar.

A OMS – Organização Mundial de Saúde incluiu no CID 11, na  seção que podem causar adicção, o transtorno dos jogos eletrônicos .  O termo adicção está relacionado a qualquer dependência psicológica ou compulsão – por jogos, comida, computadores, internet, vídeo games, drogas, entre outras. O CID 11 – Classificação de Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – é um documento que fornece uma linguagem comum que permite aos profissionais de saúde compartilhar informações.

Em tempos idos, as crianças brincavam em suas casas e se divertiam com situações corriqueiras criadas a partir de sua criatividade e interação social no prédio em que viviam, na vizinhança da rua ou entre irmãos. Quem nunca recebeu ou passou um trote? Ou fez a assustadora brincadeira do “copo” para assustar os amigos? Ou criou um brinquedo  divertido a partir de materiais de sucata ?

Sabemos que a brincadeira é fundamental para as crianças. É no brincar que a criança se apropria do seu mundo interno e desfruta de sua liberdade de criação. É a partir dessa atividade criativa em condições de confiança no ambiente, manifestada na brincadeira, que vai se formando a identidade, a base do eu (self).

Hoje, com o advento da internet, as crianças “trollam” umas às outras a partir da visualização e aprendizagem por imitação de vídeos, a maioria fabricada no Youtube para esta geração. Para quem não sabe o que é ‘trollar’, e eu também precisei pesquisar: é uma gíria de internet que significa chatear alguém para obter prazer imediato. Um ‘troll’, como eles se denominam, é um individuo que consegue fazer com que outras pessoas caiam em suas anedotas.

Além desse modelo de interação virtual, existem ainda as redes sociais e milhares de jogos eletrônicos dos mais diversos tipos. Existem crianças que navegam com facilidade em diversos ambientes digitais, mas não sabem amarrar seus sapatos ou comer sozinhas. Esta desconexão com a autonomia é um dado relevante, uma situação a se pensar. Afinal, um dos papéis da educação é tornar a pessoa autônoma.

A tecnologia tornou-se parte integrante do mundo atual, e do universo das crianças. Hoje, dificilmente uma criança pequena não tem acesso à mídia digital. Elas nascem “em tempo real”, imersas em um mundo extremamente volátil, colorido e movimentado.  As crianças se interessam não só pelos jogos em si, mas pelo apelo  visual, seu fácil acesso, sons, rapidez e desafio.

Um dos perigos da conexão ilimitada de tempo e conteúdo – e sem supervisão – de crianças e adolescentes é se acreditar que estão seguros  e protegidos na rede pelo fato de estarem em casa. A internet é uma estrada que conecta a  mundos sem limite; justamente por isso, cabe aos pais estarem atentos aos conteúdos que as crianças acessam, bem como ao tempo dispensado à tela. Criança precisa de limite e supervisão, do desenvolvimento de habilidades sociais, precisa brincar, pintar, montar, desenhar e não passar longo tempo conectado a uma tela.

Alguns cuidados devem ser tomados: atenção à segurança do conteúdo acessado, ao tempo dispendido nos eletrônicos em detrimento de outras tarefas, por exemplo. Se a criança ou adolescente está conectada em demasia, e isso passou a ser sua principal função,  é sinal de alerta máximo. Nesse caso, é preciso que a família reavalie o modo de utilização da Internet e retome seu papel de proteção da infância;  assim, a tecnologia poderá ser encarada como uma ferramenta positiva e não como algo que irá trazer prejuízo.

 

RENATA BENTO – Psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a IPA – Internacional Psychoanalytical Association, a FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e a FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise.

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